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Leptina e Dependência Química: qual a relação ?

Por Aline Aguiar e Thayzis de Paula


Apontada como um dos hormônios mais importantes no controle do consumo alimentar e do balanço energético, a leptina é secretada principalmente pelos adipócitos. Sua ação, em indivíduos não obesos, promove a diminuição do consumo alimentar e aumento do gasto energético. Em obesos, sua síntese está aumentada devido a maior quantidade de gordura corporal. Porém, ocorre resistência da sua ação no SNC, o que prejudica o controle adequado do consumo alimentar e da saciedade.

Desde 2001, estudos mostram a ação da leptina como agente neuroativo na dependência química, inibindo a ação dopaminérgica no circuito mesolímbico de recompensa.  Este circuito é mediado pelo neurotransmissor dopamina e está associado a sensação de prazer. E este prazer desencadeia a sensação de fissura intensa, um desejo muito forte para usar a droga quando os níveis de dopamina estão muito reduzidos. Isso ocorre quando há um intervalo no uso da substância ou retirada da mesma, sendo um dos sintomas da abstinência que pode levar a recaída.

Controlar a fissura é o grande desafio no tratamento da dependência química. Entretanto, é importante não esquecer que esta discussão é pontual e a dependência é uma doença complexa, onde aspectos individuais, sociais e culturais estão interligados desde o contexto para o início do seu uso até o desenvolvimento da dependência (AGUIAR et al., 2013; KIEFER et al., 2020).

Há alguns estudos que avaliaram a influência da leptina na fissura (craving). No Brasil, nosso grupo é o que se dedica a estudar essa relação. Publicamos revisão de literatura sobre influência da leptina no craving de alcoolistas e tabagistas (AGUIAR-NEMER et al, 2013) e artigos com pesquisas em modelos animais de dependência química por álcool (AGUIAR et al, 2009) e também com pessoas alcoolistas e tabagistas.

Estudamos alcoolistas em tratamento em CAPSad, onde vimos que as mulheres abstinentes recentes apresentaram altos níveis de leptina sérica. Porém, quando analisada a abstinência por mais tempo, houve queda nos seus níveis em ambos os sexos (TOFFOLO et al., 2012). Gomes et al. (2015) observaram que concentrações séricas mais elevadas de leptina foram associadas a maior fissura pela droga em fumantes em processo de cessação tabágica permanecerem abstinente. Para os autores, a regulação da transmissão da dopamina pela leptina durante a cessação tabágica parece alterar a intensidade da fissura pela droga. Maiores níveis de leptina, implicam em maior inibição da ação dopaminérgica no sistema de recompensa e, com isso, justifica a dificuldade de se manter abstinente. Já Silva et al. (2019) em um estudo de intervenção clínica, avaliaram o consumo de mix de frutas secas e oleaginosas e seu efeito sobre a fissura associado à leptina sérica de fumantes. De forma similar, verificaram que a fissura também diminuiu entre os fumantes no grupo intervenção, diferentemente do grupo controle, onde os indivíduos apresentaram maior fissura e maior intenção de fumar devido à retirada do cigarro.

Em um estudo recente, Glahn et al. (2019), verificaram que mulheres fumantes apresentaram leptina sérica mais elevada quando comparado com os  homens fumantes no início do processo de cessação tabágica.

Em relação a dependência alcoólica, recentemente, um grupo alemão liderado por Kiefer et al. (2020) publicou uma revisão de literatura com estudos clínicos sobre o assunto ( nosso estudo com alcoolistas do CAPSad fez parte da revisão). Os autores observaram que o consumo agudo do álcool resulta em concentrações reduzidas de leptina sérica, diferentemente quando o álcool é consumido de forma crônica.

Com a retirada da droga é comum episódios compensatórios ligados principalmente à alimentação. Após a abstinência do cigarro, bem como do álcool, é comum o aumento do consumo de alimentos palatáveis, ricos em gorduras e carboidratos simples, até mesmo para buscar o impacto dopaminérgico no sistema de recompensa promovido por estes alimentos, com consequente redução no consumo de frutas e vegetais frescos (AGUIAR et al., 2013).

Logo, frutas secas e oleaginosas podem ser alternativas saudáveis e nutritivas, compostasde gorduras e carboidratos de qualidade e complementares em termos de composição de macronutrientes, além de serem fáceis de armazenar, disponíveis ao longo de todo anoe que seriam capazes de contribuir para a modulação do desejo pelo droga (WANG et al., 2019; SILVA et al., 2019). Também vimos que o consumo de 40g/ dia de chocolate amargo 70% cacau pode auxiliar na diminuição da fissura no processo de cessação tabágica, sem promover ganho de peso. (GOMES, 2020)

Por isso, é MUITO IMPORTANTE a atuação do nutricionista na equipe multidisciplinar, promovendo o acompanhamento do grupo em tratamento, na tentativa de adequar as escolhas alimentares para o não ganho excessivo de peso corporal neste período (MELQUÍADES, 2020). O controle do peso corporal previne complicações metabólicas relacionadas a comorbidades comuns aos tabagistas e alcoolistas, por exemplo, como hipertensão, dislipidemias e diabetes e favorece a modulação da leptina, minimizando seu impacto no eixo dopaminérgico do sistema de recompensa cerebral. Assim, é possível manter níveis dopaminérgicos suficientes para controlar a fissura e as possíveis recaídas que desmotivam.

O processo é lento, complexo e implica em tratamento contínuo que exige dedicação da equipe multidisciplinar e, principalmente, de quem está buscando uma melhor qualidade de vida através da abstinência.


REFERÊNCIAS 

AGUIAR, A. S; Abrahão, RF ; Freitas, T.L ; Silva, VA . Earlymal nutrition favours heavy ethanolintake in weaningratswithoutlong-lastingeffects. NutritionalNeuroscience, v. 12, p. 65-71, 2009.

AGUIAR-NEMER, A. S. et al. Leptininfluence in cravingandrelapseofalcoholicsandsmokers. Journalofclinical medicine research, v. 5, n. 3, p. 164, 2013a.

AGUIAR-NEMER, A. S. et al. Cravingandfoodchoices in patientsundertreatment for smoking cessation. Int J FoodSciNutr Diet, v. 2, n. 3, p. 35-39, 2013b.

GOMES, A. S. et al. Influence of the leptin and cortisol levels on craving and smoking cessation. Psychiatry Research, p. 1-7, 2015.

GOMES, A. S. Efeito do consumo de um mix de frutas secas e oleaginosas e de chocolate amargo (70% cacau), na modulação do craving em tabagistas em tratamento para abstinência. 2020. 118f. Tese (Doutorado em Ciências Biomédicas) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2020

GLAHN, Alexander et al. Smoking-inducedchanges in leptinserumlevelsand c/EBPalpha-relatedmethylation status oftheleptin core promotor during smoking cessation. Psychoneuroendocrinology, v. 100, p. 106-112, 2019.

KIEFER, F. et al. The Impactof Appetite-Regulating Neuropeptide Leptin on Alcohol Use, Alcohol Craving and Addictive Behavior: A Systematic Review of Preclinical and Clinical Data. Alcohol and Alcoholism, p. 1-17, 2020.

MELQUÍADES. M. M. Cessação Tabágica em Pacientes com Múltiplas Condições Crônicas: estratégias nutricionais para auxiliar no tratamento. 2020. 119 f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora Minas, 2020.

SILVA, T. P. Mix de frutas secas e oleaginosas e seu efeito no craving associado a leptina sérica. 2019. 100 f. Dissertação (Mestrado em Saúde e Nutrição) – Escola de Nutrição, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2019.

TOFFOLO, M. C. F. et al. Escolha de alimentos durante a abstinência alcoólica: influência na fissura e no peso corporal. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 60, n. 4, p. 341-346, 2011.

TOFFOLO, M. C. F. et al. Increasing leptin level in abstaining alcohol-dependent women. Nutrición Hospitalaria, v.27, n.3. p.781-788, 2012.


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