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Chocolate: por que sentimos prazer em comê-lo?

Por Arthur Gomes e Aline Aguiar


Dando sequência ao  nosso último assunto, vamos falar mais sobre o CHOCOLATE, como um importante aliado para o alcance da cessação tabágica. É de extrema importância viabilizarmos opções nutricionais que possam atuar como terapia auxiliar no tratamento desta abstinência, pois trata-se de medidas não medicamentosas, viáveis, simples e de baixo custo.

O craving ou fissura, aquele desejo enorme, muito difícil de controlar, pode fazer as pessoas recaírem e voltarem a usar a droga. Por isso, existe um grande número de tabagistas que, apesar de apresentarem outras doenças crônicas, persistem fumando, sendo fundamental o auxilio profissional nesse momento. Mas como o chocolate pode auxiliar nesse processo? Quais mecanismos envolvidos? Vamos lá!

A literatura aponta que o consumo de chocolate e seus componentes influenciam positivamente na função cognitiva e no humor. Porém, permanece desconhecido se os efeitos do chocolate sobre o humor deve-se a suas características oro sensoriais ou às ações farmacológicas de seus constituintes. Embora a ingestão de alimentos com alto teor de gordura e açúcar acione o sistema de  recompensa mesolímbico (mediado pelo neurotransmissor dopamina), regiões cerebrais somatossensoriais orais e gustativas, contribuindo para aumentar o consumo alimentar, poucos estudos examinaram o papel relativo da gordura e do açúcar na ativação dessas regiões cerebrais. Isso porque é extremamente difícil operacionalizar um estudo onde grupos de pessoas consumam um só tipo de alimento teste.

Stice et al. (2013), avaliou o efeito de um milk-shake de chocolate equicalórico com alto teor de gordura ou de açúcar na ativação dessas regiões. Os autores detectaram que o aumento do açúcar causou maior atividade nas regiões gustativas e o aumento da gordura não afetou essa ativação. Estes resultados sugerem que o açúcar aciona de maneira mais eficaz as regiões recompensadoras e gustativas.

No pioneiro trabalho de Di Tomaso et al. (1996), os autores encontraram um grupo de constituinte farmacológico presente no chocolate que possui como principal alvo o sistema canabinóide endógeno no cérebro, chamado anandamida. Trata-se de um lipídeo cerebral que se liga aos receptores canabinóides com alta afinidade e confere os mesmos efeitos psicoativos das drogas canabinóides derivadas de plantas, traduzindo, o mesmo efeito da cannabis sativa. Os autores consideram que o chocolate, por ser rico em gordura, pode conter lipídeos química e farmacologicamente relacionados a anandamida. A mesma é encontrada tanto no chocolate amargo quanto ao leite. Esse poderia ser um mecanismo de explicação para os efeitos pronunciados obtidos no uso do chocolate. Além disso, quanto maior o teor de cacau, maior o teor do aminoácido tirosina, precursor da dopamina, neurotransmissor diretamente envolvido nas sensações prazer.

Como demonstrado, a literatura não possui um consenso sobre os mecanismos e efeitos exatos do uso de chocolate na modulação do humor e situações de estresse. Em relação ao tabagismo, resultados recentes do nosso grupo (Gomes et al. 2020), demonstraram uma redução significativa da fissura e da chance de recaída nos voluntários que consumiram 40g/dia de chocolate amargo 70% cacau, diariamente por quatro semanas, quando comparado aos demais grupos de intervenção. Este grupo não ganhou peso corporal com o consumo diário deste chocolate, que acrescentou cera de 140kcal/dia na sua alimentação, além de ter recebido os possíveis benefícios anti-inflamatórios dos polifenóis presentes no chocolate.  Essa evidência é de extrema importância para a população estudada, pois trata-se de indivíduos com mais de um fator de risco cardiovascular. Assim, a redução da fissura e do estresse pelo cigarro pode contribuir para aumentar as taxas de abstinência.

Algumas medidas não medicamentosas, oferecidas através da Nutrição e do consumo de alimentos em momentos e quantidades específicas, podem ser excelentes aliadas no processo de cessação tabágica, auxiliando equipes que trabalham com grupos de tratamento para cessação do tabagismo nas Unidade de Atenção Primária a Saúde do SUS, em clínicas particulares ou nos atendimentos individuais. Para isso, é sempre bom buscar a parceria de um profissional  nutricionista nesse momento tão desafiador!

 

Referências

 

DI TOMASO, E; BELTRAMO, M; PIOMELLI, D. Brain cannabinoids in chocolate. Nature, v. 382, 1996.

 

SCHOLEY, A; OWEN, L. Effects of chocolate on cognitive function and mood: a systematic review. Nutrition Reviews, v. 10, n. 1, p. 665-681, 2013.

 

STICE, E; BURGUER, K; YOKUM, S. Relative ability of fat and sugar tastes to activate reward, gustatory, and somatosensory regions. American Journal of Clinical Nutrition, v.98, p.1377-1384, 2013.

 

GOMES et al. 2020. Efeito do consumo de um mix de frutas secas e oleaginosas e do chocolate amargo (70% cacau), na modulação da fissura em tabagistas em tratamento para a abstinência. Tese de doutorado em Ciências Biomédicas – Universidade Federal Fluminense – UFF.


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