Por Aline Andressa e Aline Aguiar
A Cannabis Sativa L. é uma
planta que contém mais de 120 canabinóides, sendo os mais conhecidos o Canabidiol (CBD), que possui
efeito medicinal, e o tetrahidrocanabinol (THC) que tem ação psicoativa.
Existem três variações da planta, a Sativa (subdividida em duas outras
espécies: Cânhamo e Maconha ou Marijuana), Indica e Ruderalis, sendo a
grande diferença entre elas, o teor destes compostos.
Atualmente, muitos estudos
internacionais estão sendo realizados avaliando a utilização desses canabinóides
para uso medicinal em doenças como epilepsia, esclerose múltipla, autismo, Alzheimer,
depressão e enxaqueca crônica, além da prevenção de náusea e vômitos induzidos pela
quimioterapia. A grande maioria desses estudos estão associados ao
cânhamo que não possui efeitos psicoativos por conter concentrações de THC
menores que 0,3% e altas concentrações de CBD (proporções de aproximadamente
20:1). Além disso, existem as chamadas “hemp seeds” ou “hemp hearts”
(sementes de cânhamo) que são utilizadas na produção de medicamentos,
alimentos, suplementos alimentares e cosméticos, assim como o seu caule que é
utilizado na confecção de tecidos, cordas, compostos plásticos, papel e
materiais de construção.
Exemplo destes estudos foi o realizado por Xu DH et al. (2020) que avaliaram a eficácia do óleo
de canabidiol administrado topicamente no tratamento da dor neuropática durante
quatro semanas, onde concluíram que houve redução significativa na dor intensa,
dor aguda, sensação de frio e coceira quando comparado ao grupo placebo.
Já Schwab et al. (2020) suplementaram 30 mL de óleo de semente de cânhamo
diariamente por quatro semanas em 14 voluntários saudáveis e observaram
alterações positivas no perfil lipídico sérico destes. Com isso, vários países
possuem legislações que permitem
a prescrição como a Austrália, Alemanha, Canadá, Chile, entre outros.
No
Brasil, o cultivo da planta é ilegal, porém para uso medicinal existe a RDC Nº
327/2019 que define as condições para concessão para fabricação e a importação,
bem como requisitos para a comercialização, prescrição, dispensação,
monitoramento e a fiscalização de produtos de Cannabis. No Art 4º fala que o
produto a base de Cannabis devem possuir predominantemente CBD e o teor de THC
não pode passar de 0,2% e que apenas para pacientes que não possuem outras
alternativas terapêuticas esse teor pode ser aumentado, como em situações
clínicas irreversíveis e cuidados paliativos. No Art 5º explica que não são
considerados produtos de Cannabis para fins medicinais os cosméticos, produtos
fumígenos, produtos para a saúde ou alimentos à base de Cannabis spp. e seus
derivados.
Analisando
a composição nutricional da semente do cânhamo observa-se que contém cerca de
20-25% de proteínas, sendo as principais edestina e albumina com quantidades
significativas de aminoácidos essenciais como arginina, metionina e cisteína. A quantidade de lipídios está entre
15-35% com concentrações de ácido graxos poliinsaturados (PUFA) chegando a 90%,
e grandes quantidades de ácidos graxos essenciais como o w-6 e w-3 com
proporção de 3,5:1 respectivamente. A proporção de carboidrato fica em torno de
25- 35% sendo 10-15% de fibras, além de conter minerais como magnésio
(aprox.10mg/g), compostos bioativos, vitaminas.
Diante
do exposto, acreditamos que mais pesquisas são necessárias avaliando o efeito e
eficácia no consumo do cânhamo, não apenas do óleo, mas também de suas sementes,
como uma opção a ser incluída na alimentação devido as suas propriedades
nutricionais. Porém no Brasil, a legislação ainda é limitada para o uso
medicinal do canabidiol e das “hemp seeds” sendo as pesquisas ainda escassas
devido a proibição do uso e cultivo da planta.
OBS: para saber sobre os efeitos da Cannabis no SNC, leia o texto aqui do BLOG sobre o "sistema endocanabinóide: a chave do nosso equilíbrio"
https://nutciencia.blogspot.com/2020/08/sistema-endocanabinoide-chave-do-nosso.html
REFERÊNCIAS
DELLA ROCCA, G .; DI SALVO, A .. Hemp in Veterinary Medicine: From Feed to Drug Frontiers in Veterinary
Science Frontiers in Veterinary Science, 2020.
RUPASINGHE, H. P. V. et
al.. Industrial Hemp (Cannabis sativa
subsp. sativa) as an Emerging Source for Value-Added Functional Food
Ingredients and NutraceuticalsMoleculesMolecules, , 2020.
Xu DH, Cullen BD, Tang M, Fang Y. The Effectiveness of Topical Cannabidiol Oil in Symptomatic Relief of
Peripheral Neuropathy of the Lower Extremities. Curr Pharm Biotechnol. 2020;21(5):390-402.
doi:10.2174/1389201020666191202111534
SCHWAB, U.S.; Callaway, J.C.; Erkkilä, A.T.; Gynther,
J.; Uusitupa, M.I.; Järvinen, T. Effects
of hemp seed and flaxseed oils on the profile of serum lipids, serum total and
lipoprotein lipid concentrations and haemostatic factors. Eur.
J. Nutr.2006,45, 457–470
MINISTÉRIO DA SAÚDE -
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA – ANVISA. RESOLUÇÃO DA DIRETORIA COLEGIADA nº 327, de 9 de dezembro de 2019.
RDC. [S. l.], 9 dez. 2019. Disponível
em:
http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/5533192/RDC_327_2019_.pdf/db3ae185-6443-453d-805d-7fc174654edb.
Acesso em: 27 set. 2020.
DR. CANNABIS (ed.). Diferenças
entre Cannabis Sativa e Cannabis Indica. [S. l.], 14 nov. 2020. Disponível em:
https://blog.drcannabis.com.br/diferencas-entre-cannabis-sativa-e-cannabis-indica/.
Acesso em: 24 set. 2020
HEMPMEDS (ed.). Você
sabe qual é a diferença entre o Cânhamo e a Maconha?. [S. l.], 30 jan. 2020. Disponível em:
https://hempmedsbr.com/qual-a-diferenca-entre-o-canhamo-e-a-maconha/. Acesso em: 24 set. 2020

Em nossa sociedade, além da legislação, ainda existe um tabu enorme e MUITA desinformação em relação à cannabis e todos seus derivados. Aposto que a maioria não sabe da existência de um produto sem efeito psicoativo. Uma vez ouvi minha avó dizer que "aqueles black blocks que aparecem na TV destruindo tudo devem ter fumado maconha antes de ir pra lá". Textos ricos em informações relevantes e explicações como esse ajudam muito a apresentar coisas novas e esclarecer o papel de cada uma. Adorei o texto. É rico e importante já que em nosso país a desinformação e o preconceito tomam conta.
ResponderExcluirTemos muito que evoluir como sociedade. É nosso papel como educador trazer mais informações sobre o assunto tentando diminuir o tabu e preconceito. Seu comentário motiva a continuar na luta. Obrigada!
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