Por Renata Lima e Aline Aguiar
Com a introdução da terapia antirretroviral, tornou-se
possível reduzir a carga viral para níveis indetectáveis através da supressão
da replicação viral. Apesar disso, pessoas que vivem com HIV (PVHIV) continuam
a apresentar morbidades, não relacionadas a AIDS, mas sim a uma doença
inflamatória crônica na qual a disfunção imunológica leva à inflamação e
aumenta a mortalidade.
O alvo principal do vírus é o trato gastrointestinal, mais
precisamente o GALT (tecido linfático associado ao intestino), além de provocar
a depleção das células CD4+ ocasionando grave deficiência do sistema
imunológico. Sua presença muda a composição e função da microbiota intestinal
comprometendo a integridade e permitindo translocação de microrganismos
patogênicos para a circulação.
Estima-se que grande parte da quantidade de células CD4+
residem no GALT e o uso de antiretrovirais também alteram a microbiota
intestinal. Essa alteração pode facilitar a criação de locais com linfócitos
infectados resistentes aos antirretrovirais, além de prejudicar a barreira da
mucosa intestinal; contribuindo para manifestações imunológicas, infecciosas,
metabólicas e neoplásicas.
Estudos
foram realizados para identificar diferenças na microbiota intestinal de pessoas
que vivem com HIV em uso ou não de antirretrovirais, em comparação com
controles saudáveis. Os achados confirmam a alteração da microbiota com os
antiretrovirais e, muito interessante, que pessoas com carga viral indetectável,
mesmo sem tratamento (controladores de elite), possuem microbiota semelhante
aos indivíduos saudáveis. A composição da microbiota nas pessoas que vivem com
HIV pode ser responsável pela ocorrência de infecções oportunistas, aumento da
ativação imunológica, disfunções metabólicas, variabilidade na resposta ao
tratamento do HIV e capacidade de infecção. São diversos fatores que podem
comprometer a qualidade e controle do tratamento.
Diante destes fatores, estudos têm sido realizados
para compreender como as intervenções nutricionais podem melhorar a disbiose
intestinal nos pacientes HIV, através de uso de probióticos, por exemplo, devido aos diversos benefícios que podem fornecer. Porém,
sua indicação ainda é polêmica, uma vez que o consumo de bactérias vivas em pessoas com infecção viral
e imunossupressão pode ser um risco a doenças mais graves, como sepse e
abcessos.
Os pontos positivos para o uso de probióticos em PVHIV estão na melhora da integridade da
barreira epitelial intestinal, redução da ativação de células T no sangue e no tecido
linfóide associado ao intestino (GALT), melhora na contagem de linfócitos CD4 e
dos marcadores da translocação bacteriana, e restauração do equilíbrio entre
bactérias patogênicas e benéficas residentes na mucosa intestinal.
Porém, apesar dos
estudos demonstrarem segurança no uso de probióticos à população HIV, há
relatos de infecções invasivas por Lactobacillus, através da ingestão de
probióticos contendo Lactobacillus
acidophilus ou Rhamnosus na forma
de iogurtes ou suplementos dietéticos.
Há de se considerar que a translocação de Lactobacillus para o sangue pode ocorrer devido a própria infecção
pelo HIV, que enfraquece o sistema imune mediado pela GALT, aumenta a
permeabilidade intestinal, e causa imunossupressão, sendo a baixa de linfócitos
T CD4 <50 células/ mm a condição mais preocupante. Com isso, é seguro usar
probióticos aos pacientes
imunossuprimidos vivendo com HIV?
Tentando responder a pergunta ainda polêmica: é necessário
ter muita cautela! Devido à óbvia dificuldade em realizar ensaios clínicos
nesta população, ainda não há definição na literatura para esta estratégia
nutricional. Como já relatado, estudos ainda são controversos e escassos.
Alguns associaram a ocorrência de
infecções invasivas e desenvolvimento de sepse ao uso de Lactobacillus em imunossuprimidos, já outros, com dados populacionais, não encontraram
associação entre o consumo de Lactobacillus
e o aumento das bactérias na corrente sanguíneaExperimentos
que encontraram benefícios usaram formulações específicas que se diferem por
gênero, espécie e cepa de bactérias. Em se tratando de uma população de risco, as formulações devem ser especializadas
e padronizadas para a indicação clínica.
Mais
investigações são necessárias para afirmar ação na redução da inflamação e melhora
da composição e função da microbiota intestinal, assim como a propriedade
imunomoduladora.
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