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Beber ou não beber?

 

Por Aline Aguiar        


         O texto de hoje trará uma reflexão sobre o perfil de uso de bebidas alcoólicas preferido pelos jovens, já que a maioria que está neste instagram tem entre 20 a 45 anos. Minha intenção não é ser radical incentivando a proibição do consumo de álcool. Mesmo porque, quem sou eu diante das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS)? Minha intenção é colocar o questionamento, para pensar juntos: por que a OMS recomenda beber bebida alcoólica? Questão política, econômica...pode ser. Mas vamos aos fatos...

Se você frequenta festas ou bares e bebe no mínimo  quatro doses de bebidas alcoólicas para mulheres, e cinco doses de bebidas para homens, no período de  2 horas, você está fazendo consumo em padrão binge, ou “binge drinking” ou “beber pesado episódico”. E o que seria dose de bebida alcoólica considerada pela OMS? É a quantidade de bebida ingerida que terá cerca de 10g de álcool, o que representa 1 lata de cerveja, 1 cálice ou taça de vinho com 120 mL e 1 dose de destilado de 50 mL. Este perfil de consumo vem alertando especialistas por trazer consequências agudas e refletir em consequências orgânicas a longo prazo, interferindo na mortalidade e agravos à saúde.

Tem se relacionado a abuso sexual, tentativas de suicídio, sexo desprotegido, gravidez indesejada, infarto agudo do miocárdio, overdose alcoólica, quedas, gastrite, doenças hepáticas, alterações metabólicas e pancreatite. Sim, o álcool altera a glicemia, aumenta triglicerídeos e ácido úrico, aumenta pressão arterial, aumenta liberação de cortisol que contribui para o acúmulo de gordura abdominal. Sim, álcool tem calorias que favorecem o ganho de peso, principalmente entre os bebedores moderados de final de semana. Também há relatos na literatura sobre o comprometimento acadêmico em consequência deste consumo pesado de álcool, implicando em ausência nas aulas e prejuízo na memória e rendimento.

           Apesar do álcool ser uma droga lícita, a venda é proibida para menores de 18 anos (Lei federal no 13.106, de 17 de março de 2015). Porém, vemos apelos de propaganda em bares oferecendo e estimulando o consumo abusivo no estilo open bar, venda combinada, consumação mínima e etc, muitas vezes sem a devida preocupação em com relação a idade do público consumidor. Além disso, o marketing para o uso de álcool é bem expressivo, principalmente quando vemos empresas de bebida alcoólica patrocinando shows, eventos, festas populares, atividades esportivas e as atuais lives pela internet, possivelmente influenciando o aumento do consumo alcoólico neste período de distanciamento social durante a pandemia.

           O que seria necessário? Ações de saúde pública, aumentando taxação das bebidas e
controlando o apelo do marketing quanto ao uso de álcool, como foi feito em relação ao cigarro. Claro que com apoio amplo político e do público consumidor, o que no Brasil torna-se um grande desafio. E alertar para o  consumo consciente de bebidas. Saber seus efeitos e possíveis consequências pode alertar a jovens a ter uma avaliação mais crítica quanto a manipulação econômica que estão expostos e a ter um cuidado maior com o seu corpo e com a sociedade.




Referências


AGUIAR-NEMER, A.S
Fausto MA ; SILVA-FONSECA, V. A ; CIOMEI, M. H. ; QUINTAES, KD . Pattern of alcoholic beverage consumption and academic performance among college students. Revista de Psiquiatria Clínica (São Paulo. Impresso), v. 40, p. 65-70, 2013.

GUIMARAES, N. S. ; AGUIAR-NEMER, A.S ; MARLIERE, C. A. ; COSTA, J. I ; Fausto MA . Incidence of Binge Drinking in a Cohort of University Students of the South-East Region of Brazil, 2010-2011. Journal of Nutritional Therapeutics, v. 2, p. 228-234, 2014.

SANCHEZ, Zila M.. A prática de binge drinking entre jovens e o papel das promoções de bebidas alcoólicas: uma questão de saúde pública. Epidemiol. Serv. Saúde,  Brasília ,  v. 26, n. 1, p. 195-198,  jan.  2017 .  


TOFFOLO, M. C. F.
 AGUIAR-NEMER, A.S ; SILVA-FONSECA, V. A . Alcohol: Effects on Nutritional Status, Lipid Profile, and Blood Pressure. Journal of Endocrinology and Metabolism, v. 2, p. 205-211, 2012.




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