O texto de hoje será uma retrospectiva de um
Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) defendido em 2015 pela nutricionista Larissa Figueredo Braga no
Curso de Nutrição da Universidade Federal de Juiz de Fora, orientado por mim,
Aline Silva de Aguiar, e co-orientado por Mayla Cardoso Fernandes Toffolo. Este
trabalho pode ser citado como:
BRAGA, Larissa. Análise de
dietas de emagrecimento veiculadas em revistas populares em duas estações do
ano: inverno e verão. Orientador: Aline Silva de Aguiar. 2015. 21p. Trabalho de
Conclusão de Curso – Curso de Nutrição, Departamento de Nutrição, Universidade
Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora -MG. 2015.
Apesar de ter 6 anos, ainda se faz bastante atual pela temática tratada e por confirmar a veiculação e incentivo de dietas restritivas em diversos alimentos, com consequente restrição de calorias e nutrientes, a fim de promover o emagrecimento com enfoque de alimentação saudável atestada por nutricionistas que assinam as reportagens nas revistas avaliadas, não científicas e voltadas para o público feminino.
A mídia tem um papel fundamental no culto ao corpo perfeito,
influenciando o comportamento
alimentar em relação ao ganho ou perda de peso corporal. Constantemente, são
expostas matérias em revistas, jornais, internet, televisão, que atraem principalmente o público feminino, a fim de lhes
garantir ilusões de emagrecimento rápido e sem sacrifício. Surgiu-se as dietas
da moda, tentativas temporárias de se perder peso, promovendo resultados mais rápidos que o convencional, mas sem levar em consideração a individualidade e sendo a maioria
considerada inadequada nutricionalmente e tampouco são capazes de manter essa
perda por longos períodos.1,2.
Existem diversas dietas
que promovem o emagrecimento de forma rápida,
e elas podem ser
diferenciadas pela proporção de macronutrientes ofertadas por cada uma delas.
As proporções mais comuns são as dietas com quantidades baixas de carboidratos
e gorduras e altas quantidades de proteínas, mas a grande maioria com uma
importante restrição de micronutrientes e energia, ficando algumas em torno de
1200 Kcal por dia. 3 Popularmente são conhecidas como: dieta da
proteína, dieta da lua, dieta da sopa, dieta do tipo sanguíneo, dieta do ponto Z, dieta dos pontos,
dieta dos sucos e do jejum, dentre outras, cada uma com suas
especificidades, mas em geral, com valores calóricos muito reduzidos e pobres em nutrientes. 4
Mesmo com todos os possíveis
danos causados por estas dietas,
muitos ainda são os seus adeptos, que as seguem por
falta de informação correta sobre emagrecimento, ou simplesmente por buscarem
um corpo perfeito a qualquer preço e em curto espaço de tempo.4
A restrição calórica fornecida por dietas da moda pode trazer conseqüências graves ao organismo, desde perda de massa muscular
e água, fraqueza, tonturas, até mesmo perda cognitiva e desmaios. A
alta motivação que é veiculada por essas revistas para a perda de peso rápida,
pode ainda representar um alto risco para desenvolvimento de transtornos alimentares, como anorexia
e bulimia nervosa e compulsão alimentar.5
Ainda é necessário mais estudos que relacionem a variação da ingestão alimentar com as estações do ano, já que a maioria dos trabalhos sobre dietas da moda realizados até o momento, não ressaltam a importância da sazonalidade, mesmo que alguns dos resultados apresentado sugeriram que essa fonte deve ser considerada. 6
MATERIAL E MÉTODOS
Foram analisadas revistas
não científicas, pertencentes à mesma editora,
com o preço de no máximo
R$2,50 (dois reais
e cinquenta centavos), publicadas em um mês
do inverno (julho de 2014) e outro mês do verão (janeiro
de 2015). Nestes
dois meses, foram adquiridas em bancas
de jornal e revistas do centro da cidade de Juiz de Fora/ – MG, três revistas populares diferentes
nas quatro semanas dos respectivos meses descritos, totalizando 24 revistas
adquiridas. Foram excluídas cinco
revistas devido à ausência de publicação de algum cardápio ou dieta na referida
semana (duas publicadas no mês de julho e três no mês de janeiro).
Foi analisado um cardápio proposto por nutricionistas em cada uma das 19
revistas incluídas no estudo. A análise quantitativa dos cardápios foi feita
por meio do Programa de Apoio à Nutrição
(NutWin) do Departamento de Informática em Saúde da Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP), utilizando como padrão para cálculos uma pessoa do sexo feminino, 25
anos de idade, com peso de 55 kg e altura de 1,60m, classificada como eutrófica.
As fórmulas utilizadas para cálculos e os valores de referência das
recomendações dos macronutrientes e micronutrientes foram do Institute of
Medicine (IOM 2005 - BEE, EER, AMDR e DRI’s), que se encontram em anexo ao
trabalho. Foram incluídos na análise quantitativa das dietas: energia,
carboidrato, proteína, lipídio, água, fibra, potássio, ferro, cálcio, sódio,
fósforo, zinco, vitamina A, vitamina E, vitamina C, vitamina B12 e colesterol.
A análise estatística foi realizada utilizando o programa SPSS 19.0. Após análise
da normalidade dos dados pelo Teste de Shapiro-Wilk, foi utilizado o teste t-Studente e a comparação das médias encontradas de energia e nutrientes
das revistas analisadas por estações do ano. Compararam-se também os valores
encontrados com a recomendação da AMDR e DRI’s (referência IOM, 2005),
considerando a faixa entre 19 e 50 anos e o sexo feminino. Em todas as análises considerou-se o nível
de significância de 0,05.
RESULTADO
Ao analisar as dietas das dezenove revistas populares publicadas no inverno (n=10) e no verão (n=9), observou-se que em média as dietas publicadas no verão apresentaram maior conteúdo calórico e de fósforo do que as publicadas no inverno (Tabela 1). Não houve diferença significativa quanto ao conteúdo de água, macronutrientes e dos demais micronutrientes nas dietas publicadas.
Tabela 1. Média e desvio padrão de energia, água, macronutrientes e micronutrientes de dietas publicadas em revistas populares no inverno (julho de 2014) e verão (janeiro de 2015).
|
Variáveis |
Inverno
(n=10) |
Verão (n=9) |
p |
|
Energia
(Kcal) |
1108,70 ± 110,61 |
1290,73 ±
198,98 |
0,023 |
|
Carboidrato
(g) |
156,44 ± 19,20 |
157,54 ±
64,31 |
0,959 |
|
Proteína (g) |
76,08 ± 25,61 |
102,15 ±
26,74 |
0,45 |
|
Lipídio (g) |
25,40 ± 7,08 |
32,18 ± 11,99 |
0,147 |
|
Colesterol
(mg/dL) |
223,91 ±
115,18 |
262,25 ±
210,24 |
0,623 |
|
Fibra (g) |
26,34 ± 4,58 |
19,41 ± 9,67 |
0,058 |
|
Cálcio (mg) |
593,57 ±
211,24 |
906,55 ±
398,56 |
0,044 |
|
Fósforo (mg) |
1012,60 ± 236,34 |
1377,14 ±
283,64 |
0,007 |
|
Ferro (mg) |
9,77 ± 2,12 |
11,41 ± 3,23 |
0,205 |
|
Sódio (mg) |
917,21 ±
355,01 |
1204,57 ±
530,65 |
0,179 |
|
Potássio
(mg) |
2937,84 ± 610,14 |
2928,79 ±
731,62 |
0,977 |
|
Zinco (mg) |
7,08 ± 3,15 |
10,26 ± 3,58 |
0,056 |
|
Vitamina A
(µg) |
2047,74 ±
1600,58 |
1308,87 ±
883,56 |
0,237 |
|
Vitamina E (mg) |
5,24 ± 1,63 |
5,48 ± 2,20 |
0,790 |
|
Vitamina C
(mg) |
211,13 ±
111,05 |
216,12 ±
122,58 |
0,927 |
|
Vitamina B12
(µg) |
5,47 ± 6,27 |
5,24 ± 2,32 |
0,917 |
|
Água (mL) |
1276,13 ± 442,96 |
1076,35 ±
111,29 |
0,207 |
*p< 0,05 – Teste t-Student
Apesar do maior conteúdo calórico das dietas publicadas no verão, as
dietas publicadas nesta estação tiveram menor conteúdo percentual de
carboidratos (p=0,046). O menor conteúdo pode ter ocorrido pelo maior
percentual protéico das dietas do verão, porém não houve diferença significativa
quanto a este dado em comparação às dietas das duas estações (Tabela 2).
Os macronutrientes encontram-se de acordo com os valores de referências
preconizados pela AMDR (45-65% para carboidrato, 10-35% para proteína e 20-30%
para lipídio).12,14
Em relação às fibras, cuja ingestão deve ser de 25g por dia para uma
mulher eutrófica de 25 anos, pode-se constatar que no verão a dieta ofereceu
quantidades menores do que a preconizada, (19,41 ± 9,67 g).(Tabela 2).
Tabela 2. Média e desvio-padrão dos macronutrientes de dietas publicadas em revistas populares no inverno (julho de 2014) e verão (janeiro de 2015) com seus respectivos valores de referência obtidos pela recomendação do IOM 2005.
|
|
Estação do Ano |
|
||
|
Macronutrientes |
Inverno (n=10) |
Verão (n=9) |
p |
Valor de Referência |
|
Carboidrato (%) |
56,52 ± 5,26 |
48,25 ± 17,18 |
0,046 |
45-65 % |
|
Proteína (%) |
26,98 ± 7,30 |
32,01 ± 9,04 |
0,845 |
10-35 % |
|
Lipídio (%) |
21,09 ± 7,57 |
22,65 ± 8,95 |
0,658 |
20-30 % |
|
Fibra (g) |
26,34 ± 4,58 |
19,41 ± 9,67 |
0,058 |
25 g |
Os micronutrientes cálcio, ferro, sódio, potássio e vitamina E obtiveram
valores inferiores aos estabelecidos pelas recomendações do Institute of Medicine (IOM 2005)7,
nas duas estações do ano analisadas (inverno e verão), e os demais
micronutrientes, tiveram maior ingestão.
Nas dezenove revistas analisadas, o colesterol, que deveria ser <200
mg/dL como é recomendado pela IOM 2005, obteve-se resultados acima do esperado,
ficando sua média de 223,91mg/dL no inverno, e 262,25 mg/dL no verão.
Também há incentivo de consumo inadequado de água nas duas estações do ano (Tabela 3).
Tabela 3. Média dos micronutrientes, colesterol e água de dietas publicadas em revistas populares no inverno (julho de 2014) e verão (janeiro de 2015) com seus respectivos valores de referência obtidos pela recomendação do IOM 2005.
|
Nutriente |
Inverno (n=10) |
Verão (n=9) |
Valor de Referência |
|
Água (L) |
1,27 |
1,07 |
2,7 L |
|
Cálcio (mg) |
593,57 |
906,55 |
1000 mg |
|
Fósforo (mg) |
1012,60 |
1377,14 |
700 mg |
|
Ferro (mg) |
9,77 |
11,41 |
14 mg |
|
Sódio (g) |
0,91 |
1,20 |
1,5 g |
|
Potássio (g) |
2,93 |
2,92 |
4,7 g |
|
Zinco (mg) |
7,08 |
10,26 |
7 mg |
|
Vitamina A
(µg) |
2047,74 |
1308,87 |
600 µg |
|
Vitamina E
(mg) |
5,24 |
5,48 |
10 mg |
|
Vitamina C
(mg) |
211,13 |
216,12 |
45 mg |
|
Vitamina B12
(µg) |
5,47 |
5,24 |
2,4 µg |
|
Colesterol
(mg/dL) |
223,91 |
262,25 |
< 200 mg/dL |
As médias de energia e macronutrientes obtidos pelas revistas analisadas,
mostraram que nenhuma delas encontra-se adequada em relação a um valor padrão
para uma pessoa do sexo feminino, 25 anos de idade, com peso de 55 Kg, 1,60 m
de altura, classificada como eutrófica. As dietas
das duas estações do ano analisadas (inverno e verão) apresentaram o mesmo
padrão, em relação à energia e
macronutrientes. Os valores de carboidrato e lipídios ficaram abaixo do que se
era esperado (INVERNO: Carboidrato: 2,84 e lipídio: 0,46 g/kg/dia/VERÃO: Carboidrato:2,86 e 0,59 g/kg/dia). Entretanto as proteínas
tiveram sua ingestão aumentada (INVERNO:1,36 g/kg/dia/VERÃO:1,86 g/kg/dia). Em relação
ao valor calórico das dietas, todas
elas ficaram com valores inferiores a 2059 Kcal/dia, obtidos através de
cálculos seguindo recomendações da IOM 2005.
DISCUSSÃO
O presente estudo sugere inadequação tanto em calorias como em nutrientes em todas as dietas
analisadas, nas duas estações do ano
envolvidas (inverno e verão), mesmo sendo validadas e recomendadas por
nutricionistas. Foi observada uma oferta excessiva de proteínas, mas
insuficientes em lipídios e carboidratos, valores inferiores às referências de
micronutrientes, água e fibras, e ainda com colesterol acima do padrão. Esses
resultados foram semelhantes a literatura. 7
É comprovado que as dietas hiperproteicas e hipoglicidicas provocam
uma maior saciedade nos
indivíduos que a seguem, o que é de fundamental importância para a perda de peso corporal
de forma rápida.
O excesso de proteína pode causar inúmeras consequências ao organismo, como
aterosclerose, câncer, doenças renais e osteoporose. Pode ainda acarretar aumento de gorduras
saturadas e colesterol, já que a fonte dessas dietas
geralmente vem da gordura animal. 1,8
Dietas hipolipídicas são preocupantes, pois prejudicam a absorção das vitaminas
lipossolúveis, que são fundamentais para o bom funcionamento do organismo. A
restrição severa de carboidratos pode levar a um aumento de cetonas urinárias e
induzir a liberação diminuída de insulina. Quando esta se torna menor ou
ausente, os tecidos começam a usar ácidos graxos livres como fonte de energia,
isso traz como consequência o acúmulo de ácidos no organismo, provocando catabolismo
protéico, acidose metabólica, perda de massa muscular e ainda, diminuição do
metabolismo basal. 8
Nota-se em relação ao consumo de fibras, que a maioria das dietas
veiculadas apresenta valores inferiores a 25 g por dia, valor de referência de
consumo sugerido pela IOM (2005). Semelhante a literatura, o presente estudo
também detectou que dietas publicadas no verão estavam pobres em fibras. As
dietas do inverno, apresentaram uma quantidade maior de fibras, atingindo assim
as recomendações diárias. 7
O consumo de água não é relatado com frequência nos estudos, ficando
assim, sem meios de comparação com o trabalho atual. O que foi observado nas
dietas em questão, é um consumo inferior a 1,5 L de água por dia, totalmente
abaixo do recomendado pela IOM (2005), que seria de 2,7 L.7
Os achados na
literatura sobre colesterol diferem dos resultados encontrados no presente
estudo. Os estudos mostram que a maioria das dietas encontra-se
com
valores adequados de colesterol (< 200 mg/dL). Entretanto, a
maioria das dietas analisadas obteve valores superiores a 200 mg/dL. Colesterol
acima de 200 mg/dL pode aumentar o risco
de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.1,7
Os micronutrientes Cálcio e Ferro geralmente encontram-se sempre abaixo
da recomendação, o que foi percebido também neste estudo. Alguns
micronutrientes como fósforo, zinco, vitamina A, C e B12, apresentaram sua ingestão maior que a recomendada, o que pode ser explicado pelos tipos de alimentos consumidos nessas dietas, que são fonte
desses nutrientes. Os demais micronutrientes (cálcio, ferro, sódio, potássio e
vitamina E), mostraram uma ingestão inferior à recomendação.
A melhor e mais eficiente forma para se emagrecer com saúde é associar a
redução adequada da ingestão alimentar a um aumento do gasto energético,
associando reeducação alimentar e prática de atividade física. Deve-se ainda
garantir a oferta adequada de macronutrientes e micronutrientes. Orienta-se que
para a perda de peso saudável deve-se aumentar o consumo de frutas, verduras e
legumes, grãos integrais, e limitar a ingestão de açúcares e gorduras,
juntamente com o incentivo a prática de atividade física. 9
As diferenças entre a ingestão alimentar nas estações do ano não são abordados nos estudos. No Brasil, esses estudos são escassos, o que tornou difícil a análise dessa variável no presente trabalho. Observaram-se algumas diferenças nesse estudo entre as dietas do inverno e do verão, mas isso não nos permitiu afirmar que a sazonalidade realmente interfere na ingestão. 6
CONCLUSÃO
O presente estudo
identificou inadequações na oferta de energia e nutrientes nas dietas analisadas no inverno e verão,
reforçando a ideia de que a prática de seguir dietas veiculadas por revistas
não científicas comprometem o estado nutricional do indivíduo, apesar do aval
profissional da proposta de plano alimentar ser assinada pelo nutricionista.
Seria este profissional incentivado pela mídia a propor algo inadequado? As
inadequações foram relacionadas com a restrição calórica severa (algumas dietas
ofertando abaixo de 1200 kcal/dia), dietas hiperproteicas, hipoglicídicas e
hipolipídicas, e ainda, deficientes em micronutrientes
com destaque para o ferro e cálcio.
Torna-se indispensável à orientação de um profissional qualificado, atento as individualidades e crítico quanto ao culto ao corpo e ao mercado do emagrecimento, para realização de dietas equilibradas nutricionalmente, a fim de alertar a população sobre os riscos e que essas práticas alimentares podem trazer para a saúde
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