Pular para o conteúdo principal

Alimentação e Sono: como os alimentos podem ajudar a melhorar os sintomas da insônia


                  Por Gabriela Amorim


            A insônia crônica, caracterizada pela duração superior a seis meses, pode atingir entre 6 e 10% da população. Já a insônia aguda, com duração inferior a um mês, descrita pela dificuldade em dormir devido a algum evento estressante ou adverso, pode ser prevalente entre 7,9 a 9,5% da população. Quando se trata de distúrbios do sono nos dias atuais, estudos indicam que a pandemia do COVID-19 está associada ao aumento da insônia.  Neste sentido, dados do segundo ciclo da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico COVID 19 (VIGITEL, 2020), apontam que 41,7% dos seus entrevistados relataram dificuldades para dormir ou um aumento no tempo de sono mais o que de costume.

        Sabemos que a alimentação interfere, diretamente, na qualidade do sono. Os mecanismos que explicam a relação entre sono e alimentação podem estar associados a processos inflamatórios e oxidativos orgânicos. O estado de vigília por si só pode atuar como um fator para o aumento do estresse oxidativo. Observa-se então alto metabolismo neuronal com maior requerimento de oxigenação e, por consequência, formação de espécies reativas de oxigênio (EROs). Por sua vez, durante o sono há um estado antioxidante aumentado, o que promove proteção cerebral. Entretanto, um maior aumento na neuroinflamação causado por fatores como resistência insulínica e diminuição do hormônio orexina podem causar alterações nos padrões adequado do sono. Desta forma, alguns componentes alimentares como vitaminas, minerais e compostos fenólicos poderiam contribuir para a diminuição da inflamação e de processos oxidativos.

               Os nutrientes e compostos bioativos podem interferir na produção de hormônios como a serotonina, um importante modulador do sono. Alguns alimentos de origem vegetal possuem quantidades significativas de serotonina. Entretanto, esse hormônio, uma vez na corrente sanguínea, não consegue atravessar a barreira hematoencéfalica e chegar ao cérebro. Já o aminoácido triptofano tem essa capacidade e, ao acessar o sistema nervoso central, pode dar origem a serotonina. Alimentos como sementes de abóbora, gergelim e linhaça, castanhas, chocolate (amargo a partir de 70% cacau), ovos, lácteos e peixes são boas fontes desse aminoácido. Há maior eficiência na chegada do triptofano ao cérebro quando alimentos fontes desse aminoácido são consumidos junto a refeições contendo carboidratos (como sucos de frutas e cereais). 

            melatonina é outro importante hormônio, esta relacionada à regulação do ciclo sono/vigília e tem grande potencial antioxidante. Estudos mostram que alimentos fontes de melatonina como leite e cerejas estão relacionados a efeitos benéficos no ritmo circadiano. Ressalta-se ainda, que as concentrações de melatonina em um alimento podem ser alteradas durante o seu processamento (cocção, fermentação). Entre os alimentos que contêm melatonina podemos citar frutas como cerejas, laranja, abacaxi, banana e uvas, leite, cogumelos e nozes. 

            Portanto, quando se trata de modular o sono, o consumo de alimentos fonte de melatonina e triptofano, principalmente nas últimas refeições diárias, é uma boa estratégia.  Além disso, uma alimentação rica em frutas, verduras, grãos integrais e gorduras boas, como o azeite, irão contribuir para ingestão de compostos antioxidantes e anti-inflamatórios.

Texto: Gabriela Amorim. Nutricionista e doutoranda em Saúde Coletiva da UFJF. Membro do Grupo de Pesquisa em Nutrição Trabslacional UFJF @gpnutt.ufjf

Revisado por Aline Silva de Aguiar

REFERÊNCIAS

CARONE, C. M. M., et al. Fatores associados a distúrbios do sono em estudantes universitários. Cadernos de Saúde Pública. v. 36, 2020.

SHER, L. The impact of the COVID-19 pandemic on suicide rates. QJM: An International Journal of Medicine. 2020.

PERLIS, M. L., et al., The Natural History of Insomnia: the incidence of acute insomnia and subsequent progression to chronic insomnia or recovery in good sleeper subjects. Sleep. v.43, n.6, 2020.

CLARK, I. A.; VISSEL, B. Inflammation-sleep interface in brain disease: TNF, insulin, orexin. Journal of neuroinflammation, v. 11, n. 1, 2014.

CASTRO-DIEHL, C. et al. Mediterranean diet pattern and sleep duration and insomnia symptoms in the Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis. Sleep. v. 41, n.11, 2018.

ZURAIKAT, F. M. et al. Measures of Poor Sleep Quality Are Associated With Higher Energy Intake and Poor Diet Quality in a Diverse Sample of Women From the Go Red for Women Strategically Focused Research Network. Journal of the American Heart Association, v. 9, n. 4, 2020.

PEREIRA, N., et al. Influence of dietary sources of melatonin on sleep quality: a review. Journal of Food Science. v.85, n.1, 2020.

GREGER, M; STONE, G. Comer para não morrer: Conheça o poder dos alimentos capazes de prevenir e até reverter doenças. Editora Intrinseca. 2018.


Comentários

  1. Boa tarde, Prof Aline!

    Tenho feito tudo correto em relação a alimentação,mas ao dosar minha serotonina tive um grande susto.��
    Estou com 24 de serotonina.
    Como grande parte da serotonina é produzida no intestino, creio que meu estresse é o grande problema .

    Atualmente faço suplementação com 5Htp, triptofano e melatonina , pois essa serotonina baixa levou a um quadro de ansiedade, insônia e momentos depressivos.

    Você me sugere algo a mais?
    Tem como manipular alguns desses lactobacilos?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Abordagem Nutricional na Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)

  Por Bruna Hermisdoff,  Jackeline de Oliveira,  Josiene Garcia e  Lívia Mendes Alunas do Curso de Nutrição da UFJF – texto produzido na disciplina de Dietoterapia II – módulo Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (2020. 2o semestre) Revisado por Aline Silva de Aguiar (Professora Departamento Nutrição/UFJF) e Gabriela Amorim (Doutoranda em Saúde Coletiva/UFJF)      A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) trata-se de um grupo de doenças pulmonares causando a diminuição da elasticidade dos pulmões e o espessamento da parede brônquica o que dificulta a respiração. As DPOC mais comuns são o enfisema e a bronquite e estão associadas a uma resposta inflamatória anormal dos pulmões devido à exposição ao tabaco, poluentes, e/ou infecções respiratórias graves, dentre outros. Os sintomas incluem falta de ar, tosse crônica ou chiados durante a respiração.       Tais doenças acometem, no Brasil, cerca de 17% dos adultos maiores de 40 anos...

Ativação do Paciente: o que é? Quais os reflexos para a saúde?

       Por Denise Rocha Você intervém, mas parece que seu paciente não segue as orientações? Já ouviu falar no termo “ativação do paciente”? Sabia que é possível avaliar o nível de ativação do seu paciente/cliente para saber como as orientações podem ser mais efetivas? A ativação é um conceito comportamental que incorpora os elementos como o conhecimento, habilidades e a confiança que a pessoa tem no gerenciamento de sua saúde. Ela é medida com a escala Patient Activation Measure ® (PAM), que classifica a ativação em quatro níveis 1 e já foi validada para a utilização no Brasil 2 . Esta é uma avaliação muito utilizada na Europa. Já na América, há o predomínio de sua utilização nos Estados Unidos. No Brasil, até onde sabemos, apenas o estudo que validou a PAM para o contexto brasileiro utilizou esta escala 2 . Em nosso grupo de estudo, o GPNUT-T, está ocorrendo uma pesquisa que avalia a ativação e seus fatores associados nos pacientes em tratamento hemodialítico e...

Microbiota e Transtornos Mentais: o que você come influencia na conexão cérebro - intestino

Por Thaís Sabião e Aline Aguiar      No texto anterior, demos ênfase ao papel da alimentação na depressão destacando a importância do aumento do consumo de alimentos in natura , fontes de diversas vitaminas, minerais e antioxidantes, e a redução do consumo de alimentos industrializados, os ultraprocessados e embutidos, como um fator de proteção para a depressão. A  modificação no padrão de consumo alimentar traz impactos positivos para a microbiota intestinal, visto que a dieta é o principal determinante da sua composição.       A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos que se encontram no nosso trato gastrointestinal incluindo, predominantemente bactérias, mas também vírus, protozoários e fungos e que em condições normais, não nos trazem prejuízos.      Recentemente, a microbiota têm sido o alvo terapêutico potencial para as doenças mentais e isso se deve a existência de uma comunicação bidirecional entre o cérebro e o ...